Quando eu (Henrique) era apenas uma criança, meus pais adoravam nos levar para a fazenda aos fins de semana. Era tanta liberdade que dificilmente ficávamos com vontade de voltar para a casa na cidade. Em muitas das noites na roça, alguns tios se juntavam ao redor da mesa, apagavam as luzes e começavam a contar histórias de assombração. Não me lembro ao certo de quais destas tive mais medo, mas nunca me esqueci do frio na espinha que sentia toda vez que começavam um novo conto.

Me recordo que, certa noite, quando estavam no meio de uma história verídica e arrepiante, o vento começou a soprar forte e as luzes de vela se apagaram. Não se ouviu um pio nos segundos que se passaram sob a escuridão. Nunca mais se falou nesta noite. Foi como se nunca tivesse acontecido.

Recordo este passado distante da minha vida, pois foi inevitável não se lembrar dele quando cruzamos a Estância San Gregório, um dos lugares mais assustadores que já presenciei em minha vida.

Assim que atravessamos o Estreito de Magalhães e seguíamos em direção à Punta Arenas, no Chile, a Estância surgiu perante nossos olhos. O dia estava um pouco nublado, ventava muito e as portas e janelas da antiga Estância emitiam ruídos sombrios. Era como se alguém, do lado de dentro, tentasse de todas as formas abrí-las. Bastava se aproximar, ou até mesmo entrar em um dos imensos galpões para o corpo todo se arrepiar.

Em um destes que entrei, ouvi ruídos tão assustadores que mais se pareciam sussurros! Não posso negar: senti um frio na espinha tão intenso quanto naquela noite em que as velas se apagaram. O vento que soprava do mar era tão devastador, que toda a Estância se movia. Os antigos cadeados das portas balançavam com tanta força que mais se pareciam penas, de tão insignificantes diante de tamanha ventania.

Mas por que a Estância fora abandonada? Conhecida em todos os cantos do Chile e até fora dele, a Estância San Gregório era a maior fazenda da Patagônia no século XIX. Fundada em 1876, a Estância chegou a abrigar centenas de milhares de ovelhas e vacas. O tamanho de seus galpões impressionam até as gigantes empresas multinacionais.

Segundo as histórias que se contam, a Estância fora abandonada devido às adversas condições climáticas da região, conhecida por sofrer tempestades de neve e vento fora do comum.

Mas, então, por que a Estância permaneceu firme e forte por mais de 60 anos e só depois foi abandonada?

É aí que entram as outras versões para o abandono repentino das instalações. De acordo com os outros contos, a San Gregório foi abandonada sem uma explicação palatável, o que poderia indicar que o lugar era mal assombrado, desde os áureos tempos. Segundo relatos de diários escritos encontrados, os antigos moradores já reportavam estranhas sensações e aparições de “almas penadas” que vagavam dentro da Estância. Independentemente de qual versão acreditar, não deixa de ser extremamente curioso dezenas de famílias abandonarem repentinamente uma estrutura tão grande e tão consolidada.

A Estância San Gregório deixou profundas marcas em mim. Me fez relembrar um passado de histórias de assombração e de “almas penadas”, onde o maior medo do homem eram os ‘fantasmas da noite’. Ah, quanta saudade deste tempo, que não volta mais!

4 COMENTÁRIOS

  1. Que legal ter conhecido esse casal tão alegre e simpático na passagem por sp. Que legal acompanhar essa viagem com vcs!! Um grande abraço e boa viagem.

    • Olá Marcelo, tudo bem?
      Como você está?
      O prazer foi todo nosso poder recebê-lo no Mochileiro durante a nossa passagem por SP. Foi bom demais o tempo que passamos por ai!
      É muito bom saber que temos a sua companhia em nossa viagem! Esperamos que esteja curtindo muito e qualquer coisa é só nos escrever! =)
      Esperamos reencontrá-lo algum dia, em breve!
      Abraços dos amigos,
      Henrique e Sabrina.

  2. Haha, agora recordei de quando era criança, meu pai sempre contava uma história mais horripilante do que a outra. Nunca ouvi tantos fatos sobrenaturais sem explicações. Eram bons tempos…

    • É impossível não recordar este velhos e bons tempos, Valéria!
      Mas que bom que tivemos a oportunidade de vivê-los! =)
      Abraços dos amigos,
      Henrique e Sabrina.

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